Por Honor Pacheco
A última viagem de trem entre Raiz da Serra e Petrópolis deu-se a 5 de novembro de 1964. O último desastre, naquele trecho, ocorreu a 15 de fevereiro do mesmo ano, ceifou quatro vidas e causou graves ferimentos em mais de cinquenta pessoas.
Para aqueles que não tiveram a oportunidade de viajar de trem pela serra de Petrópolis, segue uma pequena explicação: havia comboios que circulavam entre Mauá e Petrópolis e comboios que circulavam entre o Rio de Janeiro e Petrópolis, com horários pré-estabelecidos para ida e volta.
Os trechos Mauá-Raiz da Serra e Rio de Janeiro-Raiz da Serra, por serem planos, permitiam a utilização de locomotivas convencionais. O mesmo ocorria com o trecho Alto da Serra-Petrópolis. Entretanto, para subida e descida da serra, havia necessidade de locomotivas especiais, apropriadas para circulação em rampas. Foram adotadas, para tanto, as potentes máquinas Riggenbach 4-2-4 (4 rodas pilotos, 2 rodas dentadas e 4 rodas motrizes), que tinham capacidade para impelir 35 toneladas serra acima ou sustentar o mesmo peso serra abaixo. Cada máquina realizava o percurso conduzindo dois vagões, os quais, com carga total, atingiam, juntos, 32 toneladas.
Se uma composição oriunda de Mauá ou do Rio de Janeiro chegasse à Raiz da Serra com quatro vagões, seriam utilizadas duas máquinas para subir a serra. Cada uma empurrando dois vagões. E se a composição chegasse com seis vagões, seriam empregadas três máquinas.
No Alto da Serra, a 841,3 metros de altitude, os vagões eram novamente reunidos em um único comboio e a tração feita por uma máquina convencional, que levava oito minutos para percorrer os 2.730 metros até a estação de Petrópolis.
Nas viagens de regresso, a organização era idêntica: composição normal de Petrópolis até o Alto da Serra, seccionada do Alto da Serra até a Raiz da Serra e normal, novamente, de Raiz da Serra até o Rio de Janeiro ou Mauá.
Naquele trágico sábado, 15 de fevereiro de 1964, a composição ferroviária prefixo PLZ-54, composta por uma locomotiva a vapor Baldwin e quatro vagões para passageiros (dois de 1ª e dois de 2ª classe), partiu da Estação de Petrópolis às 15h50 em ponto. O destino da composição era a Estação de Barão de Mauá, no Rio de Janeiro.
Simultaneamente, duas pequenas locomotivas Riggenbach, com as fornalhas aquecidas, aguardavam a chegada do comboio para engatar os vagões e descer a serra. Todavia, durante a tomada de posição, o condutor de uma das máquinas, Sr. José Casemiro da Silva, percebeu uma deficiência no freio-motor e, imediatamente, levou ao conhecimento do Chefe da Estação. Este, por sua vez, confiante de que o sistema Riggenbach era seguro e possuía um segundo dispositivo de frenagem, determinou que Casemiro seguisse com a missão.
Imediatamente após a chegada da composição no Alto da Serra, a máquina Baldwin foi desengatada dos vagões e recolhida ao Galpão. A primeira Riggenbach, deslocou-se, engatou os dois vagões de 2ª classe e partiu. Em seguida, a Riggenbach com defeito engatou os dois vagões de 1ª classe e também partiu serra abaixo.
Segundo informações divulgadas na ocasião pela Leopoldina Railway, nos quatro vagões viajavam 118 passageiros.
Para desespero do maquinista Casemiro, cinco minutos após o início da descida o eixo da cremalheira da sua máquina partiu, o freio mecânico não sustentou e a composição entrou em disparo. A velocidade aumentando rapidamente, passageiros em pânico oravam e gritavam por socorro, já que o descarrilamento era inevitável.
O guarda-freio, elemento que viajava em pé, junto ao volante de frenagem do primeiro vagão, na tentativa de evitar um mal maior, soltou o engate que prendia os vagões à máquina e esta, com suas 24 toneladas, desceu rapidamente, distanciando-se dos vagões.
Os freios dos vagões, em condições normais, eram acionados na descida para aliviar a carga da locomotiva, mas, naquele momento, sequer reduziram a velocidade. Ao contrário, ela se fez maior e, em poucos segundos era tanta, que os vagões tombaram, espatifando-se contra uma enorme pedra às margens da ferrovia. O segundo vagão tombou primeiro e puxou o outro.
A máquina, por ser bem menor e muito mais pesada, manteve-se nos trilhos, mas o maquinista só conseguiu pará-la a uma distância de trezentos metros do local em que se soltaram os vagões.
Com o tombamento, morreram, instantaneamente, os passageiros Oswaldo Lopes Neves, Miguel Roque Batista de Almeida e Francisco Pedro de Alcântara. Uma quarta vítima, Erasmo Roque de Almeida, faleceu mais tarde, no hospital.
Equipes da Fábrica da Estrela e do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro e de Petrópolis foram deslocadas para o local. O atendimento médico e as remoções dos acidentados ficaram por conta das equipes médicas e de enfermagem da Prefeitura de Petrópolis, do SAMDU e da Fábrica da Estrela. Os mortos e os feridos em situação mais grave foram transportados para o Hospital Santa Tereza, em Petrópolis. Os demais foram encaminhados para o Posto Médico da Fábrica da Estrela.
Infelizmente não há fidelidade na relação de feridos, pois cada jornal publicou ao seu modo, com vários nomes apresentados de maneiras diferentes. Por exemplo, um jornal publicou Mario Ramos Tavares e o outro publicou Maria Ramos Tavares.
Em alguns casos foram informadas as idades e a moradia do paciente. Foi difícil organizar. Segue a relação:
Residentes em Meio da Serra: Miguel Roque Batista de Almeida, Eulália Guimarães (45), Nadir Ramos (41), Haroldo Vila Real (73) e José Vila Real (44) pai e filho.
Residentes em Pau Grande: Genecy ou Geni Alves da Silva (30), Manoel Neves da Costa (29) e Sebastiana ou Sebastião Elias (43).
Residentes em Petrópolis: Jocelino Vieira de Melo (57) e o casal Josenir Lourenço Azevedo e Maria de Lourdes Azevedo com o filho menor Jeremias Lourenço Azevedo (13).
Residente em Mauá: Manoel Gonçalves (25).
Residente na Raiz da Serra: Vanda Maduro, esposa de Boaventura Teixeira de Melo (Tibirica).
Feridos sem residência definida: Afonso Torres e sua filha Helen de 3 anos, Antenor de Jesus, Antônio da Cruz Caldas, Arlinda e Lirio de Almeida (62), Armando Bedel, casal Antônio Almeida e Deizenir da Silva Almeida (23) com filha Rosa Valéria da Silva Almeida (3), Conceição Gomes Peçanha, Chester de Oliveira Santos, Demerval da Silva, Deolinda Borba, Djalma dos Santos Coelho, Elvira Gomes dos Santos, Eunir Adão da Silva, Francisco Gonçalves de Oliveira (ou da Silveira), Geraldo Feliciano, Geraldo Lopes Vieira, Imara Barbosa de Araújo, João Patrício de Oliveira, João Pinto da Silva, Jorge Peres de Oliveira Santos, José Batista da Costa, Maiz de Oliveira Macedo, Maria Antonieta Barbosa Araújo, Maria Aparecida da Silva, Maria Francisca Lopes, Mario Alves da Costa, Mario ou Maria Ramos Tavares, Paulino Pereira, Paulo Roberto Aguiar, Waldemir Coelho de Brito. Waldir Cunha e Zenilda Silva Pereira.
Também estiveram envolvidos no acidente o casal petropolitano Arnaldo Clemente e Thetes Duarte Clemente, pais do meu amigo Arnaldo Clemente Filho (Naldinho). Este amigo conta que, algum tempo após os comboios terem iniciado a descida da serra, estava ele na Rua Padre Feijó, no Alto da Serra, quando tomou conhecimento do desastre. Sem condução para descer (naquela época ainda não havia linha de ônibus) e sem saber o local exato do acidente, ele, como bom militar que era, desceu correndo pela linha do trem. Ao chegar no local e se deparar com os vagões semidestruídos, Naldinho, preocupado, passou a procurar pelos pais, encontrando-os feridos e incapazes de se movimentar. Ambos reclamavam de intensas dores na coluna, mas a sua mãe tinha, além disso, uma grave lesão na perna, de onde jorrava grande quantidade de sangue. Levados para o Hospital Santa Tereza, os dois estiveram internados por cinco meses, em prolongada recuperação. A Sra. Thetes necessitou de enxerto na perna.
Ambos ainda viveram por muitos anos sofrendo com as sequelas daquele desastre.
Hoje falecidos, o Sr. Arnaldo e a Sra. Thetes deixaram maravilhosos descendentes em Petrópolis e adjacências.
É BOM SABER:
Na subida, as pequenas Riggenbach levavam doze minutos até o Meio da Serra e mais vinte até o alto. Na descida, faziam em treze minutos até o Meio da Serra e menos de oito até a Raiz.
Consta que o passageiro Miguel Roque Batista de Almeida, ao perceber que a composição estava sem controle, correu para os estribos e saltou. Infelizmente, naquele momento os vagões tombaram e esmagaram o seu corpo.
Encontramos, nos registros, um comunicado da Leopoldina desmentindo as afirmações do maquinista de que a Locomotiva “não apresentava as condições de segurança necessárias”.
O tempo entre o início do aumento da velocidade e o tombamento dos vagões foi menor que dois minutos.
Infelizmente não conseguimos obter o nome do grande herói dessa tragédia: o guarda-freio. Sem a sua intervenção teria sido bem pior, pois os vagões tombariam e seriam arrastados pela máquina. Ele morreu segurando o volante de frenagem.
Relato gentilmente cedido pelo autor, Honor Pacheco.
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