sexta-feira, 8 de abril de 2022
O ÚLTIMO TREM Por Wilson PS Viajar de trem cortando a Zona da mata mineira deixou de ser um privilégio para muitos desde 1982 quando foi suprimido a última composição entre Barão de Mauá e Recreio. O trem fazia conexão com outras composições para Três Rios, Recreio, Além Paraíba, Ubá, São Geraldo, Cataguases, Bicas, Manhuaçu e Caratinga através de baldeações. Houve tempos em que o trem seguia de Barão de Mauá até Caratinga, e Manhuaçu, em dias alternados. Hoje só quem conheceu tem saudades; alguns, apenas rebuscam no imaginário. Meu saudoso pai, muito conhecido em toda a Leopoldina como Walter Ferreira da Silva, o "Blusão de couro"; sempre que podia me levava para conhecer as regiões cortadas pelos trens da saudosa Leopoldina, me levava para conhecer as instalações da ferrovia. E, eu posso dizer com convicções, que as estações ao longo do trecho me eram fascínio, ficaram na minha memória, e é lembrança a todos que tiveram o mesmo privilégio de viajar nos trens da Estrada, principalmente as estações terminais que possuiam arquitetura mais arrojada, e eram de maior movimento, de trens de passageiros e de cargas, além de apreciar cenas comuns naquele tempo em que era comum ver os veículos ferroviários a manobrar no pátio. No meu tempo o trem não seguia mais via Petrópolis, quando nasci tudo já se havia acabado, o trecho da cremalheira entre as estações de Vila Inhomirim e Petrópolis fora extinto, as composições passaram a utilizar o trecho a começar na estação deTriagem até avançar Japeri, passando por Dele Castilho e Pavuna da antiga EF Rio D'Ouro, acontecida linha auxiliar. Quando vim ao mundo ouvia falar, tanto meu pai quanto minha mãe comentavam acerca das viagens em vários pontos da ferrovia outrora inglesa, inclusive os trechos serranos, tudo nostalgia. Sem dúvida, como se diz: Eu "era todo ouvidos". Nos tempos dos meus progenitores, a composição mineira partia da gare Barão de Mauá para Minas via Petrópolis, também era grande o tráfego neste trecho de trens cargueiros trazendo e levando várias mercadorias, entre as quais: víveres, melaço, leite e derivados, biscoitos, açúcar cereais, cimento, jornais e revistas e outros. Uma breve parada em Caxias e outra em Saracuruna, seguindo viagem até Vila Inhomirim na Raiz da Serra, assim era o cotidiano do trem mineiro da Leopoldina lavando e trazendo ilustres passageiros, unindo cidades distantes. Nestas estações vendia-se os bilhetes de passagens antecipados, nada mal! Os trens entre Barão de Mauá e Petrópolis, quando chegavam em Vila Inhomirim entravam em procedimento de manobras, como todos sabem as locomotivas que vinham do Rio eram trocadas por locomotivas especiais para vencerem o trecho de serra, eram máquinas à vapor e as composições fracionadas subiam e desciam a serra entre as duas estações de dois em dois carros ou vagões. A locomotiva sempre ia atrás empurrando, na volta de Petrópolis a Vila Inhomirim vinha na frente escorando a composição para que não rolasse serra abaixo. A RFFSA na sua efêmera admistração naqueles trechos deficitários de serra, que apesar desta realidade, havia alvissareira demanda caso fosse adequado as necessidades que se exigia à epoca, a Rede nada investiu - a intenção era deixar o desgaste consumir tudo até a extinção compulsória, isso a estatal já em seus primeiros anos de vida dava sinais de, porque, e para que, fora criada; de que ferrovias no Brasil deixara de ser, por motivos políticos, fator de progresso e sim um peso a se livrar, a Rede conseguiu com exito sua façanha, e a cidade de Petrópolis, tal qual Teresópolis e Nova Friburgo, para sempre ficaram órfãs do trem. A Leopoldina alcançou o seu apogeu nas décadas de 1920 - 1940 quando era grande o fluxo de trens de passageiros para o interior e as cidades vizinhas do Rio de Janeiro que eram servidas pela Estrada. Havia o trem Expresso e o noturno mineiro, e ainda podia-se contar com os mistos que se tornaram uma marca registrada por toda a Leopoldina, apesar da lentidão por conta dos excessos de manobras pelos pátios ao longo das viagens. Esses trens mistos demoravam mais para chegar aos seus destinos, mas era uma opção, inclusive em relação ao preço das passagens dos expressos e noturnos. Dava ao apreciador munido de uma máquina fotográfica aproveitar e fazer seus registros. Os trens expressos eram compostos por carros de 1a. e 2a. Classes, e ainda o restaurante, com mesas cobertas por toalhas de linho, de igual modo o noturno, a diferença é que este último era provido de um ou dois carros dormitórios conforme a demanda. Nos tempos da tração à vapor os passageiros usavam guarda pó sobre suas vestes para não suja-las com as fuligens de carvão espelidos pela chaminé, era comum fagulhas em brasas, por isso deveriam proteger bem os olhos. Segundo relatos, a procura era grande ao ponto de alguns passageiros viajarem em pé em certos trechos. Nos anos 1970 os trens ainda chegavam à Recreio com 600 passageiros, mas com a abertura de rodovias e a oferta cada vez mais acrescida pelas empresas de ônibus em contraste com a falta de investimentos nas linhas da Leopoldina pela atual gestão da RFFSA, e os péssimos serviços oferecidos, fizeram a qualidade cair, ao ponto de os passageiros, aos poucos desistirem do trem. Só mesmo apaixonados como o ilustre Hugo Caramuru não abriam mão, cabe a homens como ele os últimos registros das pitorescas viagens pelos trilhos da Leopoldina. Segundo uma matéria intitulada: "A Última viagem do Trem mineiro" do caderno "D" do Jornal do Brasil de 22 de setembro de 1980, o trem vez a sua última viagem no dia anterior à publicação, uma tarde comum de um dia de sábado. Em sua última viagem o trem transportou apenas 41 passageiros. Segundo a matéria, o trem que partiu do terminal Barão de Mauá seguiu sua viagem na inacreditável velocidade de 19 quilômetros por hora até o seu destino final após percorrer 310 quilômetros. O comboio consistia numa composição cargueira formada por tipos diferentes de vagões e cargas, esta deixara o pátio de Praia Formosa e logo após os procedimentos de manobras em Barão de Mauá teria sido acoplado na sua cauda um único carro de passageiros, era um rústico carro de madeira com uma varanda em cada extremidade, comum nos tempos da saudosa Leopoldina, dotado de poltronas, que estacionado na plataforma aguardava apenas o embarque e a acomodação dos passageiros para o momento da partida, a última viagem era de partir os corações. Fatos interessante e bem curioso, foi quando eu morava na Penha circular no final dos anos 1980, achava estranho quando a tardinha, na plataforma, via passar diariamente, um trem cargueiro com um único carro com as mesmas características acima citado, ele passava quase sem passageiros, ou apenas com a tripulação à bordo. O carro era de madeira e ainda ostentava a grafia Leopoldina, vinha na cauda do comboio. Tal visão me é intrigante, posto que segundo a matéria do jornal, esse serviço fora extinto em 1980. Alguns dos poucos registros sobre os trens de longo percurso da Leopoldina foram realizados mas há muito a se pesquisar, posto que o serviço de trens de passageiros e misto eram comuns na ferrovia. O fim da litorina e do expresso Campista passaram despercebidos, o trem dos "Inconfidentes da Leopoldina" precisa ser pesquisado, o "Cacique" ainda teve o seu fim divulgado com maior atenção pelos jornais da época, tal como o "Folha da Manhã" de Campos, que cobriu a última viagem do Cacique entre Barão de Mauá e Campos. Estou devendo um artigo sobre o trem dos "Inconfidentes" em breve o farei. Com o lançamento do Álbum "Caçador de mim" de Milton Nascimento, em 1982, foi realizada pela RFFSA uma viagem num trem especial para ser exibido no Fantástico da Rede Globo, eu não me lembro o dia de sua exibição, mas tive o privilégio de assisti-lo. A composição de aço deixara a gare Barão de Mauá ao cair da noite, em direção à Zona da mata mineira. À bordo o cantor confortavelmente assentado numa poltrona era entrevistado pela equipe de reportagem. Nos versos de Solano Trindade uma triste realidade! O poeta esculhamba a Leopoldina É cruel e sem dó Não gosto da prosa mas diz a verdade O romantismo contrasta a triste realidade A realidade sempre foi nua e crua no cotidiano Nos subúrbios Trens velhos e sujos onde se acomodava galantes e sabujos Trens barulhentos e sacolejantes onde se viajava gentes menos importantes Mas isso só aos olhos de cartolas avarentos e ignorantes Mas a velha ferrovia nem sempre foi assim A pioneira de Minas Gerais chegou ao Rio e alcançou Vitória Trem não tem mais tudo de bom ficou para trás Será que foi obra de homens ou de Satanás? Estação da Leopoldina O trem demora-se a chegar Em cada rosto um olhar cansado a denunciar Tem gente com fome! Tem gente com fome! Fome de trem.
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