sexta-feira, 8 de abril de 2022
UM DIA EM BARÃO DE MAUÁ Por Wilson PS Foram tantas vezes, tantas alegrias, idas e vindas, um verdadeiro sonho que acabou. Valia apena o embarque e desembarque na opulenta estação de Barão de Mauá, agora como num pesadelo, incomodo-me vê-la mesmo ao longe. Bom, podemos lembrar, imaginar, pensar! Temos o privilégio de sermos dotados de memória, sim vale apena sonhar, lembrar os bons tempos da gare da Leopoldina nos seus áureos tempos, até mesmo imaginar como seria se jamais tivesse seu tráfego interrompido e entregue ao total abandono. A Máquina do tempo está pronta para mais uma viagem fantástica - a estação principal da Leopoldina antes de sua decadência forçada, está a sua espera, sem dúvidas és um privilegiado! Que tal passar um dia na estação Barão de Mauá? Embarque comigo nesta epopéia, acomode-se, o maquinista soou o apito, o trem vai partir. São cinco horas da manhã de um dia qualquer de quarta feira, escolhi este dia propositalmente, justamente para melhor ilustrar a saga. Nas plataformas anexas à épica arquitetura inglesa, ainda quase deserta, por todo dia a movimentação de trens e pessoas será intensa. Na hora do rush multidões hão de acotovelarem-se na disputa por um assento nas composições que partem em direção aos Subúrbios - Penha e Caxias. Em Saracuruna os trens bifurcam, para Vila Inhomirim e Guapimirim logo após a ponte preta. Conforme o tempo passa passageiros vem e vão, tem trem para várias regiões, o subúrbio é fregão, os camelôs sabem, vendem de tudo um pouco. Um senhor negro e elegante e com sorriso largo, chapéu de Panamá ostentando elegância, com terno e gravata, ele circula com a bengala na mão. De vagão em vagão vai alegrando a viagem com versos e prosas, hora certa e boa informação ele tem para dar. O ceguinho sabe tudo! Não há assíduo nos subúrbios que não o conheça, ali ganhava a vida. Nos velhos carros de madeira, sua presença fazia parte do cenário. De Barão à Penha, no sacolejo da composição dizia: a hora certa e o momento "exato" da chega em Caxias, no caminho vai cruzar tantas vezes! As vezes descia na Penha ou Caxias, ou Saracuruna daí voltava à Barão de Mauá para retornar num outro trem. De vagão em vagão, ia sorrindo e cantando, ganhando os seus trocados, a bengala era sua bússola. Sim tudo isso vi e muito mais. Nas viagens, pra lá e pra cá, no vai-vem frenético à Barão de Mauá, sempre foi assim - pedintes aos montes, "dá uma esmolinha pelo amor de Deus!"; vendedores de mafuá, com pouco dinheiro tudo se pode comprar. Tudo me remete a memória, como era bom andar de trem, é inesquecivel o que vou relatar: Ah que saudade me dá! dos tempos da gare Barão de Mauá. Um sanfoneiro acompanhado de um menino Um pandeiro na mão uma canção Gaita acordeon! Toca sonfoneiro uma melodia pre'u ouvir qualquer moeda lhe valia Assim era o dia dia no apinhinhado subúrbio Era um vai-vem danado! Na hora do rush trem sempre lotado A grade de horários dos tempos hodiernos é vergonha naqueles tempos não era assim tinha trem a todo instante apesar dos problemas a Leopoldina era gigante isso torna essa história ainda mais interessante 😜 Nas plataformas as composições a formar O movimento na gare Barão de Mauá não para Lá vai o carregador empurrando o carril com bagagens Na frente do comboio o Bagagem-Correio Oh tempo bom! A procura pelos trens serranos parece que jamais terá fim, Petrópolis, Teresópolis, Nova Friburgo - a Leopoldina era assim! O trem parte vagarosamente transpassando os desvios sob os pórticos de sinais, Até próximo à São Cristóvão vai lento mas pega embalo Uma parada e breve corre senão perde o trem São sete carros mas quase viajo em pé que falta de sorte! Acomodados nos assentos alguns sonolentos e outros a tagarelar O parador segue lento mas tem o rápido alguns um falastrão no entorno sussurra "parece um cata corno!" Num piscar de olhos Bom Sucesso passou Ramos Olaria Penha Caxias Em Saracuruna eu desço O trem segue Guapi ou Raiz? Que viagem feliz! O expresso mata sapo sai da frente! As Ramonas dão conta do recado A exuberante rendeira atrai olhares que coisa mais linda! pena que durou pouco As dieseis elétricas roubaram a cena por toda Leopoldina lá estão elas que coisa mais bela de se ver Vão tracionando os velhos carros de madeira num contraste de moderno e arcaico Governo que investe pela metade não tem sanidade A Leopoldina tinha que ser toda modernizada Em Vila contemplava a manobra se fosse hoje o governo não aprova mas também nada faz Quem ia para Petrópolis tinha que descer Mas proveitava o momento pra ver Hora de enganar o estomago Um o saboroso pastel Um efresco caldo de cana gelado refrigerante picolé de palito Em Guapi era a mesma coisa Pra prosseguir na viagem tem que baldear Teresópolis fica logo ali corre O trem vai partir! Ar puro clima da serra restaurador de pulmões! Coisas em que outrora era privilégio em nossa terra Como é bom viajar de trem pelo subúrbio do Rio Hoje dá medo e arrepio Com pouco dinheiro podia ir longe Conhecer e desfrutar era um vantagem Acabaram com o trem? Que sacanagem! Os trens são bola da vez Dizem que ônibus roubam os "freguês" Conversa fiada! Em Barão de Mauá a procura por bilhetes é diuturno nas nas bilheteria sempre tem fila Mas o governo sacana só gosta de grana Odeia trem! Governo não gosta de povo só quer voto do bobo Merece "chuva de ovo"! O expresso Campista vai partir Já apitou Piuuuiiii!!! O cacique viaja no silêncio da noite cortando cidades e vilarejos riscando o céu com seu farol ofuscante até chegar em Campos dos Goytacazes Dali prossegue viagem até Cachoeiro Em Barão de Mauá são sete da manhã a automotrize parte em direção à Campos as 15h tem outra Ana Carolina só viaja na litorina A Monique prefere o Cacique O trem dos lnconfidentes corta a região da zona da mata mineira vai transpondmdo rios e lagos belas cachoeiras as montanhas e serras as beleza da terras gados pastando à beira linha Bois cavalos porcos ecabras galinhas ciscando gente observando o passar do comboio Vai boiadeiro conduz a boiada que assustada se foi em debandada A Leopoldina jamais é ingrata, oferece trens noturnos, expressos e mistos No misto tem que ter paciência as manobras são uma indecência faz a viagem demorar Mas vale a pena! Quem teve o privilégio de viajar nele com a esposa e a sogra faladeira não diga besteira fique calado! Só ou com a namorada aproveite a jornada Um dia em Barão é pura reflexão O saguão lembra um bela praça onde se transitam alegres e sem graças cidadãos abastados operários apressados! Bom não é apenas ver as chegadas para o interior e as partidas para os subúrbios Gentes exauridas gentes satisfeitas outras nem tanto sempre haverá resmungões Um dia em Barão de Mauá é uma eternidade passado presente o futuro é incerto será que um dia tudo isto será uma vaga lembrança? quem viver verá! Sou apenas uma criança nisto não quero pensar No belo saguão imponentes colunas toscanas sustentam o teto em intricadas de ferro no melhor estilo inglês. A abóbora exibe elegância. A clarabóia ilumina o saguão com luz natural Se quer saber o terminal da Leopoldina é mais bonito que o da Central Cinzeiros de bronze Hall de acesso A gare é um sucesso Sua incomparável beleza impressiona com nobreza!Banheiros limpinhos A limpeza é marca registrada na estação de Barão de Mauá Os quiosques redondos de madeira escura constrastam com as belezas das luminárias Os portais em arco são um vislumbre Os relógios exibem a hora certa coisa de inglês sempre pontual Na confortável sala de espera alguns aguardam a chegada e partida de entes queridos É hora do almoço o restaurante está lotado Nem fala! Seja para um badalado almoço ou uma refeição frugal Um lanchinho rápido Nada mal! Da cafeteria exala um cheirinho agradável nas lanchonetes tem pastel de queijo, carne moída e camarão, Caldo de cana gelado, Coca-Cola, Mineirinho, Pepsi, Fanta, e Crush Quem bebe Grapette sempre repete A charutaria é uma loucura um bom atrativo grande é a procura As bombonieres leve um solvenirs! Um bigodudo que acha que sabe de tudo folheia o jornal Ao lado da mãe a menina levada da breca destrói a boneca Um gordo careca cochila na cadeira do engraxate De vagão em vagão o velho mascate um grande falador com voz de locutor parecia impressionar Esse sabe vender! Um dia em Barão de Mauá é de ferver! um aprendizado diário Epa! derrepente um tumulto! Um sujeito aloprado foi detido pela Polícia Ferroviária O bicho pegou! tomou cacete a doidado Em Barão de Mauá só tem lugar para a paz! Será? Uma velha senhora esqueceu a sacola procure no guarda volume. "tá lá!" pra que tanto desespero?! Perdeu o trem para Guapi? não tem problema espere o próximo não é como hoje que para ter outro demora uma eternidade Se embarcar no Vila Inhomirim vai ter que soltar em Saracuruna melhor esperar pra ir sentado Mas tome cuidado o trem balança a doidado! A Estação de Barão de Mauá é o principal ponto de convergência dos trens da Leopoldina todos vão para lá É a melhor opção! No subúrbio não tem baldeação esta aberração ainda vão criar Um dia em Barão é um espetáculo a parte Trens indo e vindo de todo lugar Sob pórticos de sinais transpassando desvios manobrando no pátio isso não tem igual nem mesmo na Central! O sonho acabou um amargo pesadelo tomou conta de mim o contraste hodierno é cruel . O subúrbio se transformou num inferno Meu apelo é que tudo volte a ser como antes A estação de Barão de Mauá precisa ser revitalizada em vão chora clama implora grita por socorro Denuncias; cobranças...! De quem é a culpa? Governo vai governo vem cadê o trem? O deserto incomoda Bada se faz tudo culpa desses homens instigados por Satanás A coisa precisa mudar que não sejas transformada coisa qualquer ali é estação trem só governantes míopes não podem enxergar Um dia em Barão é para reflexão! É pura emoção é não querer voltar pra casa! Só mesmo a máquina do tempo tal viagem pode proporcionar Fomos além da imaginação Você viajou comigo neste "trem bão"? Ah minha linda estação! Ah minha querida Barão de Mauá! Quanta tristeza me dá Vê-la do jeito que está é tão cruel quase me faz chorar O que vi não vejo mais Nem sei se algum dia alguém de ti irá lembrar Ter consciência que és uma estação de trem e não uma coisa qualquer Não serás museu de mnem mercado popular És estação e assim vai ficar Ah, como é bom lembrar. Sonhar não é proibido que tudo volte ao seu devido lugar! Sonho ainda ali embarcar num tre como no passado fazia sem titubear A noite está chegando por aqui vou ficar! Espero que tenham gostado desta viagem singular pois a máquina do tempo terei que desligar.
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